As eleições para o governo do Ceará levaram o governador Camilo Santana (PT) à reeleição, como estava desenhado, há muito, pelas pesquisas que antecederam as eleições. Estas sempre o colocaram em ampla vantagem em relação ao segundo colocado, General Theophilo (PSDB). A ampla aliança construída dá-lhe uma base de sustentação aparentemente tranquila, mas, só a definição do quadro nacional é que dará a noção do quanto isso será modulado, ou não.
O fato é que o índice de 79,95% de aprovação o coloca, como o governador, proporcionalmente, mais votado do País no primeiro turno. Isso dá ideia do nível de confiança que sua liderança obteve no seio da sociedade. Administrar esse capital de modo a manter os liames com os atuais pontos de apoio é o desafio em meio a uma conjuntura nacional desafiadora, independentemente de qual lado será o vencedor na disputa pelo governo central. Evidentemente, isso poderá transcorrer com maior facilidade se o Planalto estiver na mesma sintonia política. Mas, o sistema democrático foi feito para conviver com o pluralismo de visões políticas e administrativas, inclusive de visões de mundo.
No caso do Ceará, o sucesso da gestão do governo Camilo Santana parece ser o equilíbrio que vem mantendo entre o capital e o trabalho, que poderia (para a maior compreensão do processo) ser classificada como próxima do modelo socialdemocrático europeu – apenas para se ter um referencial que ajude a elucidar o fenômeno. Evidentemente, aumentarão, daqui para frente, as pressões para que a dinâmica econômica ganhe mais velocidade em relação à pauta social. Aí a habilidade e a flexibilidade para incorporar esses elementos dinâmicos, sem descaracterizar a faceta que dá características próprias à administração, serão o grande desafio.
A questão da segurança pública é, sem dúvida, o “calcanhar de Aquiles” da gestão camilista, mas, os eleitores parecem ter compreendido que essa questão passa por um viés federal. Não se sabe até quando essa percepção – se de fato existir – dará trégua ao governo até ele encontrar uma forma mais eficaz de equacioná-la. Também aqui o diferencial é exigido de um governo dessas características, que não põe suas fichas apenas na repressão policial, como quer uma certa visão simplista do problema.
Ter uma base de sustentação parlamentar folgada e conjugar tantas visões de mundo, no mesmo diapasão, é confortável, mas pode também ensejar uma percepção falha da realidade por lhe faltar o instrumento da crítica. Isso pode ser superado se a sociedade for encorajada a se autoafirmar, através de suas próprias formas de organização – críticas e independentes -, dando lugar a uma relação cada vez mais madura entre governo e sociedade.
(Editorial do O POVO)







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