Devido à experiência, aos 37 anos, foi transferido ao Ceará, onde assumiu a presidência da estatal Rede de Viação Cearense (RVC), na qual passou a atuar na administração das obras e, posteriormente, no funcionamento da primeira via férrea do Estado: a Estrada de Ferro de Baturité.
Ligando Fortaleza à região do Cariri, a linha representava a modernização local na época do Brasil Império (1822-1889), como define a historiadora Ana Isabel Ribeiro, em sua tese de doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC).
Inclusive, a estrada está diretamente ligada ao surgimento do município de Piquet Carneiro. Conhecida à época como "povoado de Jirau", a localidade foi avaliada como estratégica pela RVC, que instalou uma das estações do itinerário na vila em 1907, sete anos após o engenheiro fluminense deixar de atuar na ferrovia.
A parada estimulou o crescimento local, que, ainda com o topônimo original, foi elevado ao status de distrito de Senador Pompeu, em 1933. A mudança de nome para Piquet Carneiro aconteceu somente em 1938, dois anos após o profissional morrer, em uma homenagem póstuma feita pelo então presidente brasileiro, Getúlio Vargas.
ENGENHEIRO DEFINIU COMO CEARÁ COMBATERIA A FALTA D’ÁGUA
Porém, antes de virar nome de logradouro no Ceará, o engenheiro civil usou os conhecimentos técnicos e o talento administrativo para auxiliar na construção das primeiras estruturas de combate à seca no Estado, que também foram pioneiras no Brasil.
Ainda conforme Sousa, além de atuar no projeto da barragem, o profissional foi responsável por organizar o plano de irrigação da estrutura e, respectivamente, projetar a rede de canais que beneficiaria, na época, mais de mil hectares de terras voltadas à agricultura próximas ao açude.
o todo, a prática de Piquet Carneiro em obras de combate à seca se estendeu por nove anos, período em que usou a experiência adquirida no açude do Cedro para contribuir com outros reservatórios artificiais no Ceará e no Rio Grande do Norte.
Então, em 1909, encerrou o ciclo hídrico, retornando ao setor ferroviário como Chefe do 1º Distrito de Fiscalização de Estradas de Ferro, com jurisdição na região Nordeste. No período, voltou a atuar com a Estrada de Ferro de Baturité, na época arrendada para a companhia britânica South American Railway Construction Company Limited.
Ele permaneceu no cargo até 1914, quando definitivamente deixou as terras cearenses e retornou ao Rio de Janeiro. Antes de se aposentar, em 1921, o engenheiro ainda trabalhou na extinta Inspetoria Federal das Estradas, órgão federal que fiscalizava as estradas de ferro e de rodagem da União.
ALÉM DE NOMEAR CIDADE, PIQUET CARNEIRO TAMBÉM BATIZA RUA NO CE
Mais do que topônimo do município do Sertão Central, o engenheiro também é homenageado em outro endereço na mesma região cearense. Desta vez, em vez de batizar uma localidade, nomeia um logradouro em Quixadá: a Rua Dr. Bernardo Piquet Carneiro, no bairro Curicaca.
O tributo ganha mais uma camada quando se considera que Quixadá seria o local preferido do engenheiro nos anos em que residiu no Ceará. Para ele, a cidade “deveria ser refúgio dos homens de coração bem formado e dos que amassem a Deus pela contemplação da natureza”, segundo parafraseia Sousa no artigo ao Instituto do Ceará.
A paixão seria justificada tanto pelas belezas naturais do município quanto pelas lembranças vividas nele, onde o profissional viu nascer os primeiros filhos e cultivou amizades, inclusive com os trabalhadores que atuaram na construção do açude de Cedro. UM SUDESTINO COM OLHAR VOLTADO AO NORDESTE
Ao dedicar quase duas décadas dos 37 anos de carreira ao Nordeste, em especial ao Ceará, Piquet Carneiro sempre tratava os desafios da região como um problema nacional, como destaca Sousa ao citar um trecho escrito pelo próprio engenheiro em 1911:
"Os futuros governos tenham constantemente em vista que a prosperidade do País e seu equilíbrio financeiro não dependem somente da valorização do café, dos processos aperfeiçoados da cultura da cana, da penetração das estradas de ferro, etc., mas também e muito da solução do problema do Nordeste.”
Para ele, a saída para os obstáculos característicos da região, majoritariamente semiárida, residiam no aproveitamento do lençol freático por meio de barragens submersas e no uso de açudes para irrigação e para atividades particulares, além do investimento em culturas resistentes ao clima, como algodão e carnaúba, e da subordinação da lavoura e da pecuária às características do solo local.
Piquet Carneiro faleceu em 31 de outubro de 1936, no Rio de Janeiro, aos 76 anos. Ao noticiar a morte do engenheiro, o extinto jornal cearense “A Razao” destacou as contribuições ao progresso do Estado protagonizadas pelo profissional, classificado como "exemplo de honradez, atividade e dedicação ao público serviço".
O talento da família Piquet não parou no engenheiro. O bisneto do profissional é o automobilista Nelson Piquet, tricampeão mundial de Fórmula 1, nos anos de 1981, 1983 e 1987. Ele é filho de Clotilde Piquet, neta de Bernardo.
(*) Reportagem Diário do Nordeste