Viajo com Sancho nessa máquina criada pelas letras do meu alfabeto, o português. Gosto de viajar com Sancho, até porquê me sinto confortável em discutir com ele, as ações do comportamento humano enquanto engomo a calça do dia a dia dos sobreviventes. As estrelas estão iluminadas no espaço caótico com tantas naves passando por nós, Sancho fica nervoso, apreensivo, mas, está confortável tomando seu vinho Pérignon, presente do bispo beneditino Dom Pierre, do mesmo nome. De vez enquanto mela o bico com uma talagada de Canaan, de Sr. Valter e dá uma dentada na seriguela, docinha como o mel de abelha do sertão acopiarense. Sancho na sua inocência, já com algumas degustações de vinho e bicadas de canas, começa a fazer perguntas indecentes para o momento.
- Dom Quixote, que mal lhe pergunte, onde estamos indo nessa nave? Prefiro montar Rucio meu jumento,
- Calma Sancho, estamos indo até Atenas, na Grécia procurar um velho encrenqueiro que criou uma série de leis implementando direitos e deveres ao cidadão dito moderno, para que ele se alinhe dentro do seu próprio status quo, servindo como direção para sua comunidade, seu Estado, seu país, e o mundo.
- Opa, fiquei curioso, disse Sancho.
Chegamos a Atenas, o sol se pondo e ainda dando pra ver as nadadeiras das sereias que circundavam o mar Egeu, o perfume assobiava por entre nossos poros, na verdade não foi o cheiro do vinho nem da cachaça de Sancho,que me embriagou mas, sim, o brilhar das montanhas, o sol de Atenas se escondendo, as espumas escrevendo nas nádegas das baleias ao som das liras espartanas. Pousamos numa relva úmida, quando um senhor nos abordou. Quem são vocês? Respondi com soslaio inquieto. Somos amigos de Clistenes.
- O homem indagou? O legislador?
- Sim, respondi.
Então venha comigo, sou Ulisses rei de Ítaca, e vocês me ajudarão, "eu ajudo vocês e vocês no futuro me ajudarão", combinado?
- aquelas palavras não me eram estranhas, tem muito disso em Acopiara.
- Onde fica Acopiara, indagou Ulisses?
- Além mar, além das estrelas. Respondi
"onde as andorinhas fazem do seu palco figurativo a vida"
Ulisses ficou pensativo, e disse:
Sua viagem parece muito com minha Odisseia.
Mas, vamos a casa de Clistenes.
Quando chegamos na casa do legislador, ele nos recebeu com muita alegria,
Dom Quixote, Sancho! Que bom vê-los, já os conhecia através dos tempos, suas andanças, suas indagações. Entrem, estou fazendo o tradicional Caldo Negro, com carne de porco.
- Sancho encheu os olhos, seria o tira-ressaca da viagem.
Dom Quixote foi sentar-se do outro lado da mesa, ao lado de Sancho e Ulisses que estava curioso com aquele encontro, dois acopiarenses e dois atenienses...
O político Clistenes saboreando o Melas Zomos com pedaços de maza, um pão genuinamente grego, fica olhando para Dom Quixote e indaga O que traz o amigo acopiarense aqui?
Dom Quixote, retira o a colher de pau da boca, e olha sereno para Clistenes, e fala.
"O amigo criou um texto, uma lei que define um sistema de governo que podemos ser livres, que podemos votar "livremente" sem amarras sem medo de perder o emprego e ainda mais, podendo até cantar a liberdade, sacudir as bandeiras, gritar que somos livres, a palavra escrita a céu aberto ´vossa DEMOCRACIA, que o poder emana do povo não de chefe de município,de Estado ou do País, Um feixe de varas, onde o feixe significa poder, mas que o poder na realidade são as varas ou o povo. Isso não é perigosos para Atenas? Ou Acopiara? Atenas que no futuro se tornará Capital grega, e Acopiara que depende dos vereadores, deputados, prefeito, governador e seus empregos nas autarquias?
- Clistenes, fica pensativo, termina seu caldo e fala meio inclinado. Na verdade Dom, Ulisses, Sancho, criei uma ilusão social para toda humanidade, assim como Homero criou a Odisseia para Ulisses e sua Penélope. O único sistema que funciona para o ser humano, é o digestivo, os outros sistemas igualitários são indigestivos, o ser humano sempre usará o sistema do chicote contra seu próprio irmão, a democracia é apenas um disfarce dos que atuam no poder. Não passa de uma ilusão, o comportamento de quem tem as rédeas do poder, esse sim, é um prato que não será substituído. Isso não funcionará, nem aqui nem em seu Estado, seu país, ou Acopiara. Vão até Roma, nessa sua nave e veja o que é o "Pão e o Circo".
Sendo assim exclama Dom Quixote, obrigado pela lição a desilusão e o caldo. Vou a Roma.
Vamos Sancho, nossa aventura não pára por aqui.
Ulisses não esqueci de você, levarei você até sua amada Penélope, tem muito barbudo querendo tomar ela de você, e seu filho Telêmaco.
Quanto a você meu amigo Clistenes, eu diria que todos nós que criamos os meios, não interessa a humanidade que cria os fins.
Por Carlos Dehon nascido em Acopiara, mas, que passou por Atenas.