29/02/2020 > SÁBADO
Lideranças do movimento que foram alçadas a cargos eletivos a partir de pautas da categoria negam que haja conotação política no motim, mas o processo evidencia uma linha tênue entre projeto de poder e reivindicações
"Não se trata de movimento político". A frase é a que mais se repete entre representantes políticos do motim de policiais e bombeiros militares no Ceará, que já se estende por mais de dez dias. Movimentos do tipo, porém, alavancam carreiras políticas no Estado. Os oito anos que separam as duas mais recentes paralisações da PM no Ceará turbinaram a capilaridade eleitoral de militares e colocaram a Segurança Pública numa arena de disputa no Legislativo e no Executivo. Uma linha tênue separa o que é reivindicação classista do que é projeto de poder, com posturas que chegam a testar limites do Estado Democrático de Direito.
Ainda que, nos discursos, nomes como Cabo Sabino (ex-deputado federal), Capitão Wagner (deputado federal), Soldado Noélio (deputado estadual) e Sargento Reginauro (vereador) refutem a politização da atual crise na Segurança Pública, especialmente em ano eleitoral, é fato que eles, há anos, atuam como pontes entre a política e os militares, numa relação que, por vezes, gera um choque entre os interesses da categoria e os da sociedade.
"Estamos às vésperas de uma disputa pela Prefeitura municipal e, obviamente, por mais que esses sujeitos queiram separar o que está acontecendo dessa disputa eleitoral, não é possível", diz o professor e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV-UFC), Luiz Fábio Paiva.
Se existe a recusa atual de liderança por parte dos políticos, a afirmação dessa relação no passado é evidente. "Os militares são tão desprovidos de direitos que, somente no momento em que tivemos um representante com mandato para dizer numa tribuna o que não podíamos, foi que o movimento funcionou", afirma Reginauro, em referência à paralisação que começou em 29 de dezembro de 2011, três meses depois de Wagner assumir cadeira de suplente na Assembleia Legislativa; e terminou no dia 3 de janeiro de 2012.
Cabo Sabino, que não conseguiu se reeleger deputado federal em 2018, tomou para si o título de líder do motim atual, segundo ele, partilhado com a presidente da Associação das Esposas dos Militares, Nina Carvalho. "Sou muito mais como um orientador, um consultor para eles", pontua Sabino, que foi afastado da PM neste mês, pela Controladoria-Geral de Disciplina, por "incapacidade moral do mesmo de permanecer nos quadros" da Segurança Pública do Estado e contra quem há um mandado de prisão em aberto, segundo o procurador Geral de Justiça, Manuel Pinheiro.






