Em 20 anos, eleições de 2026 têm pior desempenho de candidatos a partir do 3º lugar ao Governo do CE O fenômeno parte não apenas da polarização, mas de um 'esvaziamento' de candidaturas.

A eleição estadual responsável por reeleger Elmano de Freitas (PT) ao cargo de governador no último domingo (4) revelou um cenário peculiar quanto à escolha feita pelo eleitorado: apenas 0,32% dos votos válidos foram destinados ao terceiro colocado na disputa.

O candidato Delegado Huggo (Missão) conquistou a posição no pódio com uma margem pequena entre os demais postulantes, obtendo 17 mil votos. Este é o menor registro para terceiros colocados em vinte anos de eleições no Ceará.

Antes, o posto pertencia ao pleito de 2006, responsável por eleger Cid Gomes (PSB) em uma disputa contra o então governador Lúcio Alcântara (PR, à época). Porém, na ocasião, o candidato Renato Roseno (Psol) ainda chegou a somar 106 mil eleitores, ou 3,74% dos votos válidos.

Os demais pleitos que abrangem essa lacuna temporal têm candidatos com participações ainda mais expressivas, mesmo quando o cenário eleitoral foi de disputa acirrada entre o primeiro e o segundo colocado:Renato Roseno (Psol), 2006: 106 mil votos;
Lúcio Alcântara (PR), 2010: 654 mil votos;
Eliane Novais (PSB), 2014: 144 mil votos;
Hélio Góis (PSL), 2018: 282 mil votos;
Roberto Cláudio (PDT), 2022: 734 mil votos;
Delegado Huggo (Missão), 2026: 17 mil votos.

A quantidade de votos obtidos por Delegado Huggo, inclusive, chega a ser inferior a candidatos que terminaram disputas estaduais em quarto e quinto lugar. No pódio geral, com 35 candidatos desde 2006, incluindo os eleitos, ele se encontra na 23ª posição.

Essa drástica diminuição não parece ser causada por abstenção ou anulação do voto. Em 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizou um crescimento de 1,5 milhão no número de comparecimento às urnas. Já o registro de Brancos e Nulos permaneceu relativamente similar aos demais pleitos.

A professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres, destaca que eleições para cargos do Executivo comumente têm formatos de disputa que "induzem" à polarização. Ou seja, o embate Ciro vs Elmano não foi uma total novidade.

Além disso, em pleitos onde há um candidato disputando a reeleição ao cargo, torna-se "muito difícil ter mais de duas candidaturas muito fortes". Esse fator também é antigo e, para o ramo da Ciência Política, atuou dentro do esperado em 2026.

Com ele, surgiu a competitividade petista e tucana, que também ocasionou o enfraquecimento das demais candidaturas. Nada disso, para a especialista, é uma situação inusitada:



Quando você tem uma eleição muito disputada, com dois nomes muito fortes, principalmente com muito apelo ou muita rejeição, os eleitores dessas candidaturas menores tendem a migrar para aqueles que têm maiores condições de vencer quem você rejeita. Então, há, inclusive, um processo de esvaziamento de candidaturas.Monalisa Torres

Professora de Teoria Política da Uece

O elemento que representa uma mudança de cenário, na verdade, acaba partindo dos próprios postulantes "menores". Diferente de outros pleitos, este teve menor divulgação, expressividade eleitoral e estruturação de campanha por parte das siglas desses candidatos.

Enquanto eleições anteriores contaram com a participação de nomes lançados pelo PDT, PSL (atual PL), PSB e Psol, não houve legenda "secundária" de 2026 com real repercussão entre os eleitores. O Partido Novo talvez seja o mais conhecido, mas se desestruturou após a saída de Eduardo Girão da disputa estadual e a posterior desistência de Pedro Brito.

Pedro Barbosa, cientista político e diretor do Instituto Opnus, concorda com essa circunstância de desconhecimento do eleitorado para com as demais legendas. Conforme o especialista, a situação contribuiu para intensificar a competitividade entre a chapa governista e o grupo da oposição.

"Não foi a polarização entre Elmano e Ciro que determinou o desempenho quase nulo dos demais candidatos, foi a ausência de outras candidaturas com maior peso político e eleitoral que contribuiu para produzir um primeiro turno altamente polarizado entre os dois principais nomes", observou.

Além disso, para o especialista, "a combinação de partidos pequenos e sem capilaridade, nomes pouco conhecidos e falta de capacidade e de meios para se comunicar massivamente com o eleitorado" é o que explica o baixo desempenho desses postulantes.
Cenários anteriores

Por cinco eleições, pelo menos uma candidatura apresentou certo destaque para além do embate principal. Mesmo em 2006, com a disputa Cid Gomes vs Lúcio Alcântara, Renato Roseno ainda tirou 106 mil eleitores ao final das apurações. A competitividade do terceiro colocado passa a ampliar ainda mais nas votações seguintes.

Em 2010, ano da reeleição de Cid, o candidato teve dois principais oponentes: Marcos Cals (PSDB) e, novamente, Lúcio Alcântara, que finalizou em terceiro lugar. A diferença com o tucano, entretanto, foi mínima: 19,51% e 16,44% dos votos válidos, respectivamente.

É esse tipo de fenômeno que faz Pedro Barbosa pontuar distinções entre candidaturas pequenas, ou "nanicas", e candidaturas competitivas. Ele explica que "não é raro vermos candidatos que terminam em terceiro ou quarto lugar com votações expressivas". É o caso não apenas de 2010, mas também de 2018 e 2022.


"Em 2018, tivemos a candidatura de Hélio Góis, que, apesar de não ser conhecido, concorreu pela mesma legenda de Jair Bolsonaro (PSL, à época), beneficiando-se da notoriedade do candidato à Presidência de seu partido. Naquele mesmo ano, o Psol também lançou candidato e, apesar de ser um partido com votação minoritária, possui uma base de eleitores bastante fiel", relembrou.

De fato, aquele pleito trouxe, respectivamente, 282 mil e 90 mil votos para Hélio e para Ailton Lopes (Psol). O último postulante, inclusive, conquistou mais de 100 mil votos em 2014, apesar de também ter finalizado a disputa em 4º lugar.
Maior distribuição de votos em 2022

Já o cenário de 2022 trouxe a maior distribuição de votos entre os três principais candidatos. Elmano de Freitas conquistou 2,8 milhões de eleitores, Capitão Wagner (PL, à época) alcançou 1,6 milhões e Roberto Cláudio (PDT, à época), 741 mil.

A mudança de estratégia para esta corrida eleitoral visivelmente mexeu nesse modelo de distribuição do eleitorado. Enquanto a base governista se aliou a sete partidos e três federações na coligação "Ceará forte, do lado certo", a oposição esteve ao lado de três siglas e duas federações na aliança "Unir para Mudar".

Em um cenário no qual o governismo se manteve coeso em torno da candidatura de Elmano e os diversos grupos de oposição se uniram em torno de Ciro, para a quase totalidade do eleitorado, a decisão de voto foi tomada considerando apenas esses dois nomes.Pedro Barbosa
Cientista político e diretor do Instituto Opnus

Aliança da oposição e futuros pleitos

Os especialistas avaliam que a competitividade deste pleito poderia ter tomado rumos diferentes caso a oposição não tivesse decidido concentrar suas apostas em um único candidato.

Pedro Barbosa aponta três fatores para essa decisão: a impossibilidade de candidatura de André Fernandes (PL), devido a sua idade; a experiência negativa de dividir a oposição em 2022 e o "fator Ciro Gomes (PSDB)". O nome do tucano teria dado uma "expectativa real de vitória" para os integrantes da oposição.

A figura bolsonarista de André Fernandes, inclusive, é classificada como "o nome mais forte da oposição" no Ceará por Monalisa Torres. Apesar de não conseguir eleger sua aposta para o Palácio da Abolição, ele conquistou a reeleição na Câmara dos Deputados e se tornou o parlamentar mais votado no Estado, superando Ciro.
Reflexos na disputa de 2028

A polarização vista para o Executivo cearense deve retornar para as eleições municipais em 2028, conforme os especialistas, em um cenário de base governista contra André, que já disputou o cargo anteriormente e esteve próximo da vitória:

Para 2028, em Fortaleza, por exemplo, não tem como a gente fugir de uma disputa polarizada, dado o potencial desses dois partidos [PT e PL], mas também dessas duas lideranças, Camilo Santana (PT) e André Fernandes (PL). Cada um em um polo ideológico diferente, que se antagonizam muito claramente, e que, ainda que indiretamente, já se enfrentaram em 24.Monalisa Torres
Professora de Teoria Política da Uece

*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.

(*) Diário do Nordeste

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