Aviso ao leitor: o conteúdo a seguir aborda relatos de assédio e violência sexual, que podem ser sensíveis para algumas pessoas.
“Eu só quero trabalhar sem esse tipo de perseguição. Sem alguém falar assim: Ah! Ela chegou porque deu para alguém. Eu quero ser reconhecida pelo meu mérito, não porque dei para alguém”.
O trecho é parte do relato de uma das quatro árbitras que denunciaram Paulo Silvio Santos, presidente afastado da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol. Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, a declarante descreve o dia em que foi estuprada por ele, em 2023. Outras três pessoas também estavam no local e tomaram conhecimento do ocorrido depois. Além disso, ela destaca o abalo psicológico e a espera por justiça.
Relato do abuso
Após uma pré-temporada da arbitragem, o grupo decidiu ir a um restaurante. Além dela, estavam Paulo e outras três pessoas. Quando o local fechou, foram a um motel, local onde ocorreu o crime.
“A gente só queria ir para outro local; quem estava bebendo, continuar bebendo. Eram só pessoas que eu confiava demais. Então, jamais imaginei que fosse acontecer o que aconteceu. Embora a gente tenha ido para esse tipo de local, a gente não combinou nada de ninguém ficar com ninguém.”, contou.
“Chegamos nesse local, enquanto as outras pessoas iam para o frigobar, olhavam o quarto. Ele me colocou na cama, ficou tentando me agarrar, e eu tentando me soltar. Até dizendo: "Sai, eu não quero. Para!" E ele insistindo. Até que eu consegui ir para o banheiro. Ele foi atrás de mim. Nesse quarto tinha uma vidraça, e as pessoas foram se dispersando para a piscina”, relatou.
Fui ao banheiro, apavorada já. Nem imaginei que ele fosse. Nem tranquei a porta. Então ele chegou a ir lá. Ele chegou a tocar por baixo do meu short. E eu dizendo que não queria. E ele insistindo, tentando me agarrar. Eu estava de short e top o tempo inteiro. A gente vinha de pré-temporada, então a gente estava com roupa de jogo, suada. E ele tentou me tocar por baixo do short. Depois a gente conseguiu sair do banheiro. Cheguei à borda da piscina lá, vi as pessoas, falei com uma das pessoas que estavam. Eu nem sabia o que dizer. Eu estava desesperada. Só queria sair do local. Não contei nada para ninguém na hora.Vítima de estupro
“Antes de eu ir embora e ficar desesperada, fui para o chuveirão, tomei uma ducha. Ele foi atrás no chuveirão também. E ficou ainda tentando me tocar, e eu tentando sair. E fui para a piscina porque tinha mais gente. E ele não ia fazer nada. Mas aí não parou. E eu, gente, por favor, vamos embora. Eu queria sair dali. E a gente veio embora. Meu amigo me deixou”, finalizou.
Abalo psicológico
Outra denunciante, que também foi vítima de assédio de Paulo, estava no local e lembrou como estava a amiga após vê-la deixar o quarto e se dirigir à piscina, onde o restante do grupo estava. Os demais só tomaram conhecimento da situação muito tempo depois.
“Ela estava assustada, pálida, muito nervosa e pedindo para sair do ambiente. Eu não entendi, pedi para ela falar alguma coisa. Ela não falou nada, só pediu pra ir embora. E nós fomos. Foi desesperador e angustiante não poder reagir porque ela não queria se expor, foi difícil. Eu já sabia o que tinha acontecido, que era estupro, que era crime, mas ela não queria falar. A partir do momento que a mulher fala “não”, é “não”. E se ele insistir isso é estupro”, afirmou.
A árbitra relata que não havia entendido que o ato forçado era crime de estupro. A vítima também conta sobre o abalo psicológico e o receio de fazer uma denúncia formal e de contar a outras pessoas.
“A partir do momento que eu disse não, já era para ele ter saído. E ali já é um estupro porque não consenti. Eu demorei a entender isso. Eu tenho vergonha dessa história. (...) Passei muito tempo me culpando por essa história. A gente tem medo. Eu não tinha entendido isso como estupro apesar de saber a definição. (...) E aí o medo de denunciar. Nem todas as pessoas vão acreditar”.
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