Logística reversa. A indústria que se renova pelo lixo

26/05/2019, DOMINGO
Fortaleza, CE, Brasil, 16-05-2019: Ultralimpo, especializada no gerenciamento de resíduos no Maracanaú, atende empresas com o objetivo de garantir uma destinação ambientalmente correta e economicamente viável. (Foto: Mateus Dantas / O POVO)
Foi no vai e vem pelas ruas do bairro Serrinha, em Fortaleza, que Lidiane Sousa, 39, aprendeu o ofício. Aos 18 anos, já esmiuçava os sacos de lixo deixados nas calçadas em busca do que poderia ser transformado. "Até os ossos das sobras de alimento viravam sabão", exemplifica. Ela está na ponta da chamada indústria de reciclagem, que possui grande potencial de crescimento no Brasil, mas ainda perde R$ 8 bilhões por ano em materiais recicláveis desperdiçados em aterros e lixões, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Nesse contexto, a chamada logística reversa, que faz a gestão dos resíduos para que ele retorne ao ciclo produtivo, é determinante a fim de criar uma rota que percorre toda a cadeia para o desenvolvimento socioeconômico e sustentável. Ocorre que, além do impacto ambiental necessário e positivo, a prática gera emprego e renda a recicladores e agrega valor a empresas. Lidiane conta que aprendeu tudo com a mãe, fundadora da Associação dos Catadores de Serrinha (Acores), entidade da qual hoje é presidente. "O catador é um agente ambiental que transforma o lixo em produto e renda", defende.
Na Acores, são 15 toneladas de resíduo recicladas por mês e 20 trabalhadores para separar o material doado por empresas, que, em troca, recebem o certificado do descarte correto. Em 2010, foi estabelecida a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010). A norma obriga empreendimentos fabricantes, distribuidoras e comerciantes realizarem a logística reversa dos resíduos classificados perigosos, como agrotóxicos. Há também alguns acordos setoriais, como os de embalagens, bebidas e alimentos e eletroeletrônicos.
Conforme estudo de viabilidade econômica do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), realizado como suporte ao acordo setorial de embalagens, a logística reversa pode gerar benefícios econômicos de R$ 1,1 milhão por dia. O efeito, no entanto, só seria possível caso 90% da população fosse atendida por coleta seletiva de resíduos. Uma realidade que ainda engatinha no Brasil. Para o levantamento, foram consultados 364
municípios nos diferentes estados, totalizando fatia populacional de 63%, entre novembro de 2015 e novembro de 2017.
Albino Alvarez, técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, explica que a educação ambiental é a peça-chave para o sistema funcionar. "Para que a logística reversa dê certo, é necessário implantar a cultura da coleta seletiva. Se a pessoa separa em casa o material, ela passa a ser um elemento ativo do processo", observa. "Este gargalo gente não cruzou, de envolver as pessoas em um trabalho de separação de materiais. Isso porque, hoje, quase tudo vai para o lixo para depois ser separado. O que gera retrabalho e mais gastos. É a coleta seletiva que torna possível a redução grande dos custos", acrescenta.
Paulo Branco, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que essa é uma questão de responsabilidade compartilhada entre setor público, privado e sociedade. "Se você consegue estruturar adequadamente o processo de logística reversa e de reciclagem, gera oportunidade de trabalho e renda para muitas pessoas que estão na base da pirâmide social no Brasil. As cooperativas de catadores são um veículo importante para a inclusão social", destaca.
A prática evita os riscos à saúde humana, o descarte dos resíduos no meio ambiente e reduz a emissão do dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2), responsável pelo aquecimento global. Aécio Alves de Oliveira, professor do Departamento de Economia Ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC), chama atenção para o risco de precarização do trabalhador e o desequilíbrio gerado pela escala de produtiva industrial. "Deve-se, também, evitar a grande produção. Se um quilograma de lixo é reciclado e depois se produz mais, estamos enxugando gelo", ressalta.
O Povo ONLINE.

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